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Este microbook é uma resenha crítica da obra:
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ISBN:
Editora: 12min
Eu tinha sete anos quando colei minha primeira figurinha da Copa. Não me lembro exatamente qual jogador era, mas lembro do gesto. Apertar o canto do adesivo até ele grudar. Passar o dedo por cima para tirar a bolha de ar. Fechar o álbum, abrir de novo, conferir se estava lá mesmo. Era um ritual privado, quase religioso, que se repetia no meu e em milhões de quartos pelo mundo ao mesmo tempo.
Confesso que tive vergonha na primeira vez. Levei o álbum até o caixa com o cuidado de quem está comprando um produto de criança, esperando o olhar de julgamento da atendente. Não veio. Ela olhou pra mim e disse "ah, eu também tô colecionando". Sorriu. E foi nesse momento que entendi que isso não tinha nada a ver com idade. Tinha a ver com algo mais antigo, mais profundo... uma engrenagem que a Panini construiu há cinquenta e seis anos e que continua girando exatamente igual.
A história começa em mil novecentos e setenta, numa fábrica em Módena, no norte da Itália. Os irmãos Panini já vendiam adesivos de jogadores italianos desde sessenta e um, mas naquele ano conseguiram a licença oficial da FIFA e produziram o primeiro álbum de uma Copa do Mundo. O torneio era no México. Eram dezesseis seleções. O álbum era fino, a cola era ruim, o papel era barato. E mesmo assim... virou um padrão global. Toda Copa, desde então, tem álbum. E todo álbum cresce.
O de dois mil e vinte e seis é o maior de todos. Novecentas e oitenta figurinhas, distribuídas em cento e doze páginas, com a Copa expandida para quarenta e oito seleções pela primeira vez na história. Cada seleção ocupa uma página dupla: dezoito jogadores, uma foto coletiva, um escudo brilhante. A Panini lançou o álbum oficialmente em vinte e oito de abril de dois mil e vinte e seis, num evento no Estádio de Wembley, em Londres. Os anfitriões eram David James, John Barnes, Gary Cahill e Adam Lallana... quatro ex-jogadores da seleção inglesa que cresceram comprando os mesmos pacotinhos que hoje vendem.
Eu reconheço esses caras. Não como jogadores, embora seja por isso que eles estavam lá. Reconheço como gente da minha tribo. Cahill disse num depoimento que ver o próprio rosto numa figurinha pela primeira vez foi um dos momentos mais surreais da carreira dele. Eu acredito. Porque pra quem cresceu colando figurinha, aparecer numa é o equivalente a virar lenda.
Tem um detalhe novo nessa edição que eu reparei só na hora de abrir o primeiro pacote: agora vêm sete figurinhas em cada um, e não cinco. É a primeira vez desde dois mil e quatorze que a Panini aumenta a quantidade por pacote. Parece detalhe técnico. Não é. Significa que mesmo a empresa que inventou esse mercado precisou ajustar a engenharia da escassez. Cinco figurinhas por pacote começaria a parecer cruel.
Se eu tivesse sorte absoluta... nenhuma figurinha repetida, ordem perfeita... precisaria de exatamente cento e quarenta pacotes pra completar o álbum. Cento e setenta e cinco libras, ou cerca de duzentos e vinte dólares. Mas ninguém tem sorte absoluta. Em dois mil e dezoito, um professor de matemática da Universidade de Cardiff calculou que seriam necessárias quatro mil oitocentas e trinta e duas figurinhas para preencher um álbum de seiscentas e oitenta e duas posições, considerando as repetidas estatisticamente inevitáveis. Com novecentas e oitenta posições agora, a estimativa é que mais de mil pacotes possam ser necessários, o que coloca o custo real de completar o álbum perto de mil libras... ou mil duzentos e setenta dólares. Em outras palavras, eu posso gastar o preço de uma viagem internacional num envelope de papel atrás do outro. E a parte assustadora é que faria isso.
Cada pacotinho é uma loteria em miniatura. Você paga um valor fixo, abre, e o que vem é aleatório. Pode ser o último jogador que faltava. Pode ser a quinta repetida do mesmo lateral-direito anônimo. Os neurocientistas chamam isso de recompensa variável, e ela libera dopamina não no momento da vitória, mas na expectativa dela. Por isso o ato de abrir o pacote vale, em termos químicos, mais que o conteúdo. Por isso é praticamente impossível abrir só um. Eu sei. Eu já abri vinte de uma vez.
E tem outra coisa agindo em paralelo. Psicólogos chamam de efeito do gradiente de objetivo: quanto mais perto da meta, mais motivado você fica pra chegar lá. Um álbum vazio é uma promessa abstrata. Um álbum com setecentas figurinhas coladas e duzentas e oitenta faltando é uma obsessão concreta. É exatamente o ponto em que eu desisto de cobrar dívidas dos amigos e começo a frequentar grupo de troca no WhatsApp.
Falando em troca. Essa é a parte que eu mais amo, e que nenhum aplicativo conseguiu replicar até hoje.
Trocar figurinha é uma coreografia social antiga. Você precisa do outro. Precisa mostrar o que tem, ouvir o que falta no álbum dele, calcular a equivalência... "duas comuns por uma especial", "três suas por uma minha rara"... e fechar o negócio com um aperto de mão. Eu fiz isso na infância em pátio de escola, no recreio, com o álbum debaixo do braço. Faço hoje em grupo de WhatsApp com pessoas que eu nunca vi, marcando encontro em padaria pra trocar a Argentina nove pela Espanha catorze. É o mesmo gesto. É o mesmo afeto. Só mudaram os canais.
A Panini sacou isso. Em dois mil e vinte e seis, a empresa criou uma rede de feiras itinerantes no Reino Unido, com uma caixa de figurinhas viajando de cidade em cidade pra distribuição gratuita. O evento de Wembley tinha mais adultos chorando de nostalgia do que crianças animadas. E isso me leva ao terceiro segredo desse produto, que é o mais subestimado de todos: nostalgia tem balanço financeiro.
Cada álbum de Copa é uma cápsula do tempo de um ano específico. Quem viveu noventa e quatro tem o álbum daquele ano gravado na memória como um marcador de quem era naquela época. Os jogadores impressos viraram ícones antes mesmo de entrarem em campo. Maradona, Romário, Beckenbauer, Ronaldo, Messi... existem em estátua, em camisa, em documentário... mas existem primeiro em figurinha. Não é coincidência que uma figurinha rara do Messi do álbum de dois mil e vinte e dois tenha sido vendida no eBay por quatrocentos e noventa dólares. Existe um mercado paralelo inteiro de figurinhas antigas, com leilões, peritagem e cotações.
Os números do negócio confirmam o que o coração já sabia. Em dois mil e dezoito, a Panini faturou um ponto quatro bilhão de dólares. No ano anterior, sem Copa, tinha faturado seiscentos e treze milhões. Ou seja: o álbum da Copa, sozinho, mais que dobrou a receita da empresa em doze meses. O mercado global de cards e figurinhas colecionáveis vai dobrar de tamanho até dois mil e trinta e dois, segundo projeções, e o futebol responde por mais de um terço de tudo. Antes da Copa de dois mil e dezoito, eram vendidas quarenta milhões de figurinhas por dia no Brasil. Por dia.
Tem uma novidade nessa edição que me deixou genuinamente irritado, e preciso registrar. A Panini fechou parceria com a Coca-Cola: doze das figurinhas necessárias pra completar o álbum não estão à venda em pacotes. Só aparecem escondidas atrás do rótulo de garrafas de Coca-Cola e Coca-Cola Zero em mercados selecionados... basicamente Estados Unidos e Canadá. Quem mora fora desses mercados depende do mercado secundário, e os preços já dispararam. O que a Coca-Cola anunciou como bônus, a comunidade de colecionadores tá chamando de barreira. E com razão. Porque o álbum sempre foi caro, mas pelo menos era caro pra todo mundo igual. Agora ele é mais caro pra quem nasceu no lugar errado.
E ainda assim, mesmo com essa pegadinha geográfica, mesmo com o custo absurdo, mesmo com a era do digital infinito... toda Copa, as prateleiras esvaziam. Os grupos de troca lotam. As crianças chegam na escola com envelope na mochila. Os adultos chegam no trabalho com pacote no bolso.
A figurinha da Copa é um dos pouquíssimos produtos de entretenimento físico que sobreviveu intacto à era das telas. Não foi substituído. Não foi tornado obsoleto pelo Instagram, pelo TikTok, pelo metaverso, pelo NFT. Pelo contrário: a Panini lançou versões digitais e elas continuam sendo um acessório do álbum físico, nunca o substituto. O motivo é simples, e eu sinto isso toda vez que abro um pacote. A figurinha não vende informação sobre o jogador. Vende o ritual de descobrir o jogador. E ritual, por definição, precisa de corpo, de tempo, de gesto.
É por isso que eu, aos quarenta, ainda sento na cozinha com café, álbum aberto e pacote na mão. E vou continuar a cada 4 anos.
Se você trabalha com marketing, branding ou produto, o álbum da Panini é um dos casos de estudo mais completos sobre engajamento que existe. Recompensa variável, progresso visível, dimensão social, escassez artificial, nostalgia acumulada e ritual físico... todos os ingredientes que aplicativos de fidelidade tentam imitar há vinte anos, a Panini montou nos anos setenta e refina há cinquenta. Olha quais desses elementos seu produto consegue tocar.
Se você acompanha mercado de mídia e entretenimento, o dado mais importante é que o físico não está morto. O mercado de cards colecionáveis vai dobrar de tamanho até dois mil e trinta e dois, e a parte que mais cresce é justamente a que depende de objeto material, não de tela. Vinil, livro físico, câmera analógica, álbum de figurinha... tem uma economia inteira sendo construída em torno do que o digital não consegue replicar.
Se você é pai, mãe ou educador, presta atenção numa coisa: dar um álbum de figurinha pra uma criança é o mais próximo que existe de um curso prático de administração financeira, cálculo de probabilidade, negociação e tolerância à frustração... tudo de uma vez, com motivação intrínseca, sem precisar gamificar nada. Já vem gamificado de fábrica.
E se você é como eu, simplesmente alguém que cresceu colando figurinha e nunca parou de gostar... você não tá sozinho nesse afeto. Tem milhões de gente abrindo pacote agora, em quarenta e oito países, com a mesma expectativa que você sentia aos sete anos. Algumas coisas não precisam de explicação. Só precisam de um envelope fechado e da pergunta que nunca envelhece: qual será que veio?
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